segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Entrevista: Ezio Mauro

‘Cansaço físico é apenas a moldura da decisão do papa'

Diretor de uns dos maiores jornais da Itália afirma que desacordo com a cúpula do poder da Igreja é o principal motivo da renúncia de Bento XVI

 

A explicação oficial inicial para a renúncia do papa Bento XVI, anunciada na última segunda-feira, foi a perda das forças físicas. Um motivo surpreendente, particularmente depois que o mundo – bem como Joseph Ratzinger – acompanhou o calvário de seu antecessor, João Paulo II. Aos poucos, no entanto, Bento XVI foi dando novos esclarecimentos, que descortinaram outros motivos para a imprevista renúncia.

Na missa da Quarta-Feira de Cinzas, o papa denunciou que“o rosto da Igreja é por vezes desfigurado por pecados contra a unidade da Igreja e divisões do corpo eclesiástico”, e lembrou que Jesus denunciou “a hipocrisia religiosa” e aqueles que buscam o aplauso e a aprovação do público em vez da simplicidade. Ratzinger não foi específico, mas, para um dos maiores jornais da Itália, o La Repubblica, que levantou a bandeira dos motivos políticos já na segunda-feira, o discurso do papa se dirigia abertamente a Tarcisio Bertone, o cardeal indicado por Bento XVI para secretário do estado do Vaticano. Diretor do jornal, Ezio Mauro afirma, em entrevista ao site de VEJA, que o objetivo do papa com a sua renúncia era derrubar o governo de Bertone, já que no papado lhe faltavam forças para revolucionar internamente o Vaticano. Confira a entrevista:

O La Repubblica possui informações seguras de dentro do Vaticano confirmando que os motivos da renúncia do papa são políticos? Imediatamente após a renúncia escrevemos que as razões para a perda de vigor físico, a idade que avança, o cansaço são certamente apenas a moldura de sua decisão. Na quarta-feira, o papa disse abertamente que existem outras razões. Nós dissemos imediatamente que o cansaço era um desacordo profundo com a Cúria, com o modo pelo qual a Cúria é governada e, ao mesmo tempo, a quase incapacidade de mudar essa situação com um papa idoso, que se sente cansado para revolucionar todo um sistema do Vaticano. Então, a sua demissão responde a seus desejos pessoais, físicos e morais de ter um pouco de tranquilidade e se associa também à necessidade, nessa sua estrada, de zerar o governo da Igreja.


O La Repubblica defende em seus artigos que o objetivo do papa era derrubar o seu próprio secretário de estado, Tarcisio Bertone. O que mudaria na Igreja sem Bertone? É automático nas regras do Vaticano que, quando um papa renuncia, o secretário de estado, que foi indicado pelo próprio papa, também cai. Assim acaba automaticamente o reinado de Bertone. O próximo papa será um soberano absoluto que pode escolher se quer manter Bertone ou nomear um outro secretário de estado. Com a renúncia do papa, termina o governo de Bertone. Dizem que o papa é contrário aos métodos usados pela secretaria do estado, sobretudo nos últimos anos, e piorou com os escândalos em que o Vaticano se meteu, o vazamento de informações, o corvo [referência ao mordomo Paolo Gabriele]. Então, com o discurso muito duro que ele pronunciou na quarta-feira, sobre as divisões dentro da Igreja, as personalidades que deturpam a imagem da Igreja, ele se dirigiu à cúpula do poder da igreja. É como se o papa tivesse dito ‘eu falei da minha doença, da minha fraqueza física, e, na alma, também falo da doença da Igreja’. Certamente isso também influenciou a decisão do papa.


Em um vídeo publicado na segunda-feira no Repubblica TV, o senhor comenta que a renúncia representa a modernização da Igreja. O senhor se referia à justificativa humana de Joseph Ratzinger ou à possibilidade de uma transformação na forma como opera a Igreja? Às duas coisas ao mesmo tempo. Eu disse que essa renúncia é a irrupção da modernidade dentro de uma estrutura secular porque o homem, com as suas fraquezas, com a diminuição de suas forças físicas, emerge, vem à luz, e não tanto a figura santa, sagrada do papa. É a pessoa física. E isso é um sinal de modernização. Além disso, de qualquer forma, a dessacralização do papa, que permanece certamente como figura de referência para todos os católicos, mostra que ele também é um homem e que é preciso levar em conta as debilitações humanas, as suas forças. Tudo isso transformará a Igreja, pois se o papa se demite porque lhe faltam as forças, a escolha de seu sucessor deve levar isso em conta. Então haverá os critérios espirituais, de autoridade, mas também os físicos, de idade, o caráter, o estado da alma. Nesse sentido, há uma modernização da Igreja.

FONTE: Revista Veja
http://veja.abril.com.br/noticia/internacional/%E2%80%98cansaco-fisico-e-apenas-a-moldura-da-decisao-do-papa  

 

 

‘A Igreja muda ou acaba’, diz teólogo brasileiro

  • Mário França crê que o modelo atual da Santa Sé trai a origem da fé católica

Helena Celestino (Email)
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Transição. Bento XVI caminha após sua audiência no Vaticano na quarta-feira: seu sucessor vai herdar uma série de desafios e problemas que o Papa atual não conseguiu resolver, desde escândalos na Igreja à disputas internas por poder na Cúria de Roma Foto: Tony Gentile/Reuters
Transição. Bento XVI caminha após sua audiência no Vaticano na quarta-feira: seu sucessor vai herdar uma série de desafios e problemas que o Papa atual não conseguiu resolver, desde escândalos na Igreja à disputas internas por poder na Cúria de Roma Tony Gentile/Reuters
Por onze anos, Mário França, 76, fez parte da Comissão Teológica do Vaticano, onde conquistou o respeito do então cardeal Joseph Ratzinger. Hoje, professor da PUC-Rio e autor de obras sobre a teologia, defende uma nova Igreja, longe da hierarquia e das ortodoxias de Roma, e com espaço para gays e padres casados.
O GLOBO: Como a Igreja vai sobreviver ?

Mário França: Chegou um momento em que a Igreja, só com os oficiais, padres, bispos e Papa, não aguenta mais. Esta estrutura foi uma traição à Igreja primitiva, em que todo mundo participava e tinha direitos iguais de participação. Todos são iguais, não tem homem, mulher, judeu, gentio ou escravo e senhor. Depois a Igreja erigiu uma estrutura monárquica, um pouco copiada de Roma. Foi consequência da chegada dos príncipes, que começaram a nomear parentes para tomar conta das muitas propriedades da Igreja. Era preciso estruturar ou tudo ia ficar na mão de famílias poderosas, nobres. Para evitar isso, o laicado foi afastado do poder da Igreja - o laicado não era o povão, eram estes príncipes que estavam cada vez incomodando mais. Passou o tempo e a Igreja ficou identificada por seus bispos, padres etc. É errado, né? Todo cristão, todo católico, tem o direito de formar um grupo, com o qual a hierarquia não pode se meter. A Igreja do futuro vai ser predominantemente leiga ou então não vai aguentar.


O Grupo de diversidade católica, que reúne gays, é um exemplo do que o senhor está dizendo?

Mário França: Exatamente. É um grupo de pessoas que são assim. A Igreja não pode excluir, tem de atender todo mundo. É uma maneira de a Igreja mostrar sua abertura. A consciência histórica é lenta. Teve um tempo que os missionários se perguntavam se tinham que batizar ou não os negros da África, por que não sabiam se eram animais ou gente. Muita coisa que achamos normal hoje, daqui a 50 anos será considerada intolerável. Os laicos vão obrigar a Igreja a criar um espaço de debate público, que não existe. A qualquer problema, corre-se para o bispo.


Mas as mudanças têm sido lentíssimas.

Mário França: Não se mexe da noite para o dia com 1,2 bilhão de pessoas. Não se podem criar traumas, as pessoas têm mentalidades muito diversas e, como diz o Rubens César Fernandes, do Viva Rio, o importante é que a gente mantenha todo esse pessoal dentro da Arca de Noé. Os sociólogos dizem que tudo pode mudar, menos o religioso, porque o ser humano tem necessidade de segurar alguma coisa. A gente percebe que isto não tem sentido. O sagrado também é construído através de uma linguagem e de práticas.


Esta posição está afastando muita gente.

Mário França: É, há paróquias que viraram agências de fornecer sacramento, isto está condenado. Tem de ter o sentido missionário. É o que se está tentando fazer agora. Mas é lento. Quando eu fui da Comissão Teológica do Vaticano, não tinha nenhuma mulher, agora já tem quatro. Não há dúvidas de que o fim do celibato já deveria ter acontecido, Paulo VI era a favor disso - mas uma coisa destas vai mudar a estrutura.


A questão da contracepção também está mais do que na hora de ser enfrentada.

Mário França: São questões morais que têm se ser mudadas, mas é uma coisa lenta. No papado de João Paulo VI, o cardeal de Bruxelas disse: na minha arquidiocese é permitido camisinha - ele estava com um problema seríssimo de explosão de Aids entre trabalhadores imigrados. Resolveu assumir e disse: aqui é preciso usar camisinha. O Vaticano não disse uma palavra.


A Igreja não vem conseguindo acompanhar as mudanças sociais?

Mário França: São rapidíssimas. Na PUC, a mudança de uma geração para a outra se dava em 20 anos, depois passou para 10, agora com dois ou três anos, você já vê aluno do quarto ano que não consegue entender o calouro. É uma sucessão vertiginosa que não conseguimos mais acompanhar, que provoca um curto-circuito na cultura.


Quem é o mais progressista entre os candidatos a Papa?

Mário França: Os cardeais terão de fazer um perfil de uma pessoa que entenda o mundo e saiba enfrentar esses desafios todos. Tem de ter boa formação pastoral e intelectual, capaz de se cercar de pessoas competentes. Tem um candidato de Honduras, Luis Alfonso Santos, que é uma pessoa muito possível de dar um bom Papa. Sabe línguas, é sensível, mora no país mais pobre da América Central: é uma pessoa que marca pela inteligência. Tem Luiz Antonio Tagle, um filipino progressista também, mas ele é muito novo. Tem 55 anos. Mas eu duvido que queiram colocar um cardeal de 50 anos, pois ele ficaria 30 anos. A turma não quer isso não. Cardeal Ravasi, encarregado da Cultura, também é muito aberto.


Resumindo: o senhor diz que a Igreja tem de mudar?

Mário França: Já está mudando. Ou muda ou acaba. É um momento sério da sociedade, faltam líderes. Onde estão os Churchill, De Gaulle, Adenauer? Não tem mais, está faltando líder. Na Igreja também, e os problemas são muito grandes. As religiões têm um papel muito forte no mundo de hoje, e a Igreja tem de ser uma reserva ética, apesar dos mal feitos da cúpula.

Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/mundo/a-igreja-muda-ou-acaba-diz-teologo-brasileiro-7596687#ixzz2LG7AYnXI
 



FONTE: sítio eletrônico do jornal "O Globo"
http://oglobo.globo.com/mundo/a-igreja-muda-ou-acaba-diz-teologo-brasileiro-7596687  

(Colaboração: matéria gentilmente enviada pelo colega Célio Braga).

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013


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A quarta hipótese
Por Douglas
 

Vem do famoso escritor, filósofo e literato C.S Lewis a máxima cristã de que somente três hipóteses explicariam Jesus ao mundo:

A)    Jesus era um mentiroso;

B)    Jesus era um louco megalomaníaco;

C)    Jesus era Deus.

Curioso e precioso este jeito de raciocinar. O bom irlandês, um dos mais famosos convertidos ao Cristianismo do século XX, julgou sintetizar nessas três premissas todas as possibilidades interpretativas que rondavam a figura de Jesus de Nazaré, conclamando seus ouvintes e leitores a um compromisso de razoabilidade.
 
C.S. Lewis
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Senão, vejamos: poderia um mentiroso, um impostor, um embusteiro ter colocado na mente e no coração de seus discípulos, muitos deles não o tendo conhecido pessoalmente, alguns deles homens letrados e versáteis de seu tempo, a força para enfrentar as duras perseguições que eles teriam de lidar por esposar suas peculiares crenças, dando voluntariamente sua vida para defender a fé nesse mesmo Mestre da Galiléia? É de bom senso que não, afinal, todas as tentativas nesse sentido por pessoas com esse perfil enganador cedo ou tarde eram desmascaradas, ainda que pela força da História pesquisada. E mesmo essa reconhece em Jesus o quesito seriedade e compromisso com sua própria fé propagada.

Que dizer então da hipótese megalomaníaca? Esse jovem hebreu acreditava ser ele mesmo um com seu Pai Celestial, portanto, ele mesmo Deus, mas no fim não passava de um rapaz exaltado – mas de bom coração - que acabou crendo em suas próprias imagens mentais distorcidas. É essa, de certo modo, a posição do pesquisador francês do final do século XIX, Ernest Renan em seu livro “A vida de Jesus”: um bom homem com algumas boas idéias no lugar errado e com a disposição psicológica errada. Ora, o Cristianismo tradicionalmente irá afirmar, não sem um sorriso de misericórdia, que o raciocínio do parágrafo acima desabona isso. Se ele era louco, era de uma loucura mais sábia do que a dos homens, uma santa loucura que, ao inspirá-los, mostrava muito mais sua marca divina do que mórbida. Uma loucura dotada de uma moral irreprochável e já apresentada por grandes filósofos gregos, tais como Sócrates, Platão e Aristóteles. Contudo, uma moral que, muito mais do que psicologicamente refinada, ia ao âmago dos sofrimentos humanos para lhe apresentar um bálsamo que dificilmente os filósofos de antanho conseguiriam igualar. Logo, a hipótese não se sustenta.

Só restaria então uma alternativa: Jesus de Nazaré é aquilo que ele alegadamente afirmou o ser: Deus, filho de Deus, o Pai e ele mesmo um só com seu Pai Celestial. Pois apenas Deus encarnado conseguiria personificar a síntese excelente de qualidades que Jesus o fez. Vencido por essa razoabilidade rigorosa e tão simples, Lewis se quedaria emocionado ao estudo e meditação do Evangelho desse mesmo Jesus, se tornando um dos mais respeitáveis divulgadores do mesmo em um continente arrasado por duas Guerras Mundiais e por um ambiente acadêmico de profundo ceticismo para com estas questões.

Imaginam nossos irmãos católicos e protestantes que a questão aí estaria encerrada. Supõem que a inexpugnabilidade do argumento de Lewis, constantemente ressuscitada por pregadores de diferente jaez, seja ela mesmo inatacável e ponto final. Contudo, não se pode concordar com essa visão posto que ela mesma traz os limites interpretativos que mostram por quê não se pode endossá-la. Vejamos como:

Usualmente o que não se consegue perceber é que por traz desse raciocínio circular se esconde uma premissa básica: Podemos saber com segurança o que Jesus pensava e dizia, pesquisando o confiável exemplar dos Evangelhos em nossas Bíblias. Ali estão as palavras de Jesus, fielmente passadas para todos por uma ininterrupta cadeia de copistas e tradutores que, com mínimas e insignificantes diferenças, irão permitir que todos os que queiram, no século XXI, saber o que esse Jesus dizia assim o façam.

E ali nesses Evangelhos, especialmente no Evangelho segundo João, há uma série de afirmações de Jesus que corroboram ser ele Deus, filho de Deus Pai, um só com Deus, Filho Primogênito e Unigênito, isto é, o Primeiro e o Único. 

Sendo assim, certos de que essas coisas tenham sido ditas por Ele, basta que nos posicionemos quanto a uma das três hipóteses de Lewis e então teremos um resultado seguro: a confirmação da divindade do Rabi da Galiléia. Mas, será mesmo?

Daí é que vem nossa quarta e fundamental hipótese: Jesus nunca disse que era Deus. Isso é um choque para muitos, uma vez que, acostumados com uma atmosfera cultural onde a divindade de Jesus sempre era repetida e reafirmada como fato dado e inquestionável, a afirmação contrária parece então uma tolice ingênua.

Ousamos portanto repetir: Jesus nunca disse que era Deus. E mais ainda: A Bíblia, livro que merece todo o nosso carinho, respeito, consideração e pesquisa, não é um livro infalível, um guia absoluto sem erros sobre as palavras, os ensinos e os pensamentos de Jesus. Não, não o é.

Vamos então colocar nosso pensamento de outra maneira: uma vez que o respeitável livro conhecido como Bíblia Sagrada não é um guia sem erros do que Jesus disse e foi, colocando na boca de Jesus coisas que ele não afirmou, pode-se concluir que não, ele jamais afirmou ser Deus.

Mas alguém poderia com muita justeza perguntar: Que provas se têm disso? Falar é fácil. Prove!

Pois muito bem, quem apresenta essas provas não somos nós, mas um conjunto muito grande de pesquisadores de História do Cristianismo Primitivo, de sociólogos, antropólogos e mesmo teólogos que, se desdobrando sobre os mais antigos manuscritos disponíveis do Novo Testamento, comparando informações lingüísticas, de época, de geografia, de costumes, de dados informativos arqueológicos e literários, de doutrinas teológicas presentes na época, nos mostram, com um grau muito grande de precisão, o que não se pode afirmar sobre a época e, em contrapartida, o que se pode afirmar.

Um pequeno artigo informativo como esse não pode apresentar esses detalhes todos, mas pode indicar onde procurar. Autores como John Dominic Crossan, Geza Vermes, Bart Ehrmann, Elaine Pagels e Karen Armstrong, com livros disponíveis em português, são um excelente começo. Ali estão apresentações sistematizadas que evidenciam largamente nosso ponto de vista. Nosso estímulo é: leia-os e estude-os. E isso é apenas um começo.

 Todavia, podemos elencar aqui algumas das conclusões de um gigantesco número de estudiosos representados pelos autores acima. São elas:

A)    Os Evangelhos foram escritos muito tempo depois de Jesus ter sido morto, datando o mais antigo deles, o Evangelho segundo Marcos, de aproximadamente 50 anos da morte do Rabi da Galiléia. Os Evangelhos segundo Mateus e Lucas cerca de 70 anos e o Evangelho segundo João, quase cem anos após o decesso do Mestre;

B)    Nos chamados Evangelhos Sinóticos – Mateus, Marcos e Lucas - não há referências específicas sobre a Deidade de Jesus, ainda que neles ele seja apresentado como um ser humano que efetivamente demonstrava uma relação de intimidade com o Pai, Deus, considerado como Pai de todos nós e não especificamente dele, Jesus;

C)    O Evangelho segundo João, provavelmente escrito por um judeu convertido ao Cristianismo oriundo de Alexandria, uma das principais capitais intelectuais do Império Romano naqueles dias, reflete uma teologia cristã que não era unanimemente aceita por todos os cristãos deste período, atribuindo a Jesus falas e diálogos elaborados que muito mais refletem a crença do autor do texto do que de fato o que Jesus pregou, máxime no que concerne a sua própria pessoa;

D)    É historicamente possível traçar as sucessivas visões que se tinham de Jesus, desde os primeiros anos do Cristianismo nascente até a declaração final de sua co-Divindade com Yahweh, o Pai, no concílio de Nicéia em 325 da Era Comum, mostrando um espectro de entendimentos sobre a figura do Rabi da Galiléia que vai desde um ser humano comum que é escolhido como profeta e messias – ungido salvador dos hebreus e eventualmente de toda a humanidade – passando por um ser de Luz oriundo de uma elaborada hierarquia celestial, até se chegar à idéia de Deidade Absoluta que se tornaria, com o passar dos séculos e muitas disputas, a idéia vencedora no seio da cristandade;

E)     Os posteriores acréscimos teológicos que remeteriam à Deidade de Jesus foram sendo paulatinamente incorporados aos textos evangélicos ou mesmo desenvolvidos neles – como é o caso do Evangelho segundo João - na medida em que os cristãos confrontavam suas crenças com as de outras religiões e com filosofias que muito empolgavam as mentes intelectuais do primeiro e segundo século da Era Comum. Sendo assim, tópicos como a ressurreição em carne e sangue, a virgindade de Maria quando concebe Jesus, a morte sacrificial e ressurreição de um deus – ou de Deus – bem como outros ensinos e os correspondentes ritos cristãos oriundos disso eram uma elaboração responsiva à mitologia dos povos e grupos a quem se pregava o Evangelho – boa notícia em grego – profundamente tocados por ensinos dos Mistérios Dionisíacos, Dos Mistérios de Isis, dos Mistérios Mitraicos, da Gnose e da associação interpretativa genial dos textos sagrados hebraico-aramaicos com os de filosofia feitos por um contemporâneo judeu de Jesus, Fílon de Alexandria.

Sendo assim, podemos reafirmar a Quarta Hipótese: Jesus de Nazaré jamais declarou sua divindade, ao contrário, essa lhe foi atribuída por seus seguidores, especialmente os discípulos intelectuais greco-romanos, sobretudo muito tempo depois de sua morte, quando a disposição intelectual cosmopolita afeita à cultura do Império Romano desmontava mitos variados e os reunia em uma síntese cada vez mais elaborada e expansiva. Coube à figura idealizada de Jesus ser o ponto nodal desse esforço, por parte de seus discípulos tardios.

O bom cristão que ler essas linhas, lhes dando algum crédito, poderá perguntar então: sendo assim o que sobra? Quem de fato foi Jesus?

Ora, este é um blog espírita e deste modo é natural que a resposta dada seja obviamente oriunda da doutrina espírita.

Nós espíritas não temos o menor receio de endossar as conclusões historiográficas sobre Jesus de Nazaré uma vez que, de nossa perspectiva, quando as Ciências e as disciplinas acadêmicas se pronunciam sobre seus precípuos objetos de estudo, elas são a autoridade a ser respeitadas e não uma revelação religiosa, por mais respeitável que o seja.

E o que as pesquisas acadêmicas mais recentes nos falam a respeito do Rabi da Galiléia é de um ser humano extraordinário, mas ainda assim um ser humano, um ser humano pleno, integral, congruente com sua percepção da humanidade, de seu povo, do ambiente sócio-cultural-político em que vivia e com as reais necessidades espirituais das pessoas, necessidades essas perfeitamente sintetizadas por Jesus na realidade insofismável, do seu ponto de vista espiritual, de que há um Criador a quem podemos e devemos chamar de Pai, independente de raça, religião, status político ou econômico. Um Pai com quem podemos e devemos nos relacionar e que pede de nós tão somente e principalmente que consideremos o próximo – todo e qualquer ser humano – como irmãos e irmãs, literalmente falando, porque Ele, o Pai, é Pai de todos e somos todos uma imensa família. E que quando nos tratamos sistemática e persistentemente como família, o Reino desse Pai, Reino de paz, de justiça, de perdão e de felicidade, se torna uma realidade concreta em nossas vidas, um grande banquete onde todos celebramos a Paternidade divina e a irmandade de todos para com todos.

Mas a Doutrina Espírita vai além do que se pode concluir com base nas pesquisas dos sábios em suas cátedras. Soma a elas a afirmação de que Jesus de Nazaré foi e é um espírito imortal, como eu e você, que evoluiu em incontáveis vidas reencarnando e desencarnando até chegar a um estado de ser que, por falta de um vocabulário mais específico, chamamos de puro e perfeito. E que veio até nós como ser humano integral reencarnando há cerca de 2.000 anos para reforçar para nós, seus irmãos menores, pequeninos e ainda vacilantes, as excelências morais de se trilhar o caminho do Bem, do Belo e do Verdadeiro, que é o caminho do Amor-Caridade.

Esta visão nos é apresentada em nossa Doutrina em dois momentos muito significativos, mas não exclusivos: em o Livro dos Espíritos, pergunta número 625 e sua resposta com comentário de seu organizador, e no Livro A Gênese, capítulo XV, escrito pelo codificador do Espiritismo contemporâneo, nosso irmão Allan Kardec. Nosso convite a você, que nos lê, é esse: Leia e medite na questão acima indicada do Livro dos Espíritos, com sua respectiva resposta e, em seguida, leia as explicações que o Espiritismo nos fornece sobre a figura de Jesus no interessantíssimo livro de Kardec, A Gênese. Se seu coração estiver aberto a novas possibilidades, é nosso entendimento sincero de que você não irá se arrepender e um novo e maravilhoso horizonte interpretativo se abrirá em sua mente, empolgando-lhe com uma história de 2.000 anos que lhe parecerá paradoxalmente antiga e atualíssima.
 

 

terça-feira, 29 de janeiro de 2013



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O CONSOLADOR E O INSENSÍVEL


por Jefferson

O Brasil chora a dor do falecimento de 235 pessoas – em sua maioria, jovens – na tragédia ocorrida na boate Kiss, em Santa Maria – RS, no último domingo (27/01/2013). Mais de 70 estão internados em estado grave. Pais, namorados, amigos, desconhecidos, todos os cidadãos de Santa Maria e do Brasil estão tristes na alma com o ocorrido. Para os mais próximos, o desespero de perder um ente jovem, mal saído da adolescência, para as chamas e a fumaça de um incêndio plenamente evitável é inimaginável.



Qual é o papel do Movimento Espírita diante do sofrimento desses familiares? Do desespero de pais e mães que choram os seus filhos, que enterram as suas esperanças e os seus corações juntamente com os caixões? A resposta é simples: chamar o Espiritismo para o papel dado a ele por Jesus: o de Consolador. Secar lágrimas, ser solidário, oferecer palavras de afeto ou mesmo oferecer ajuda material e técnica, como muitos voluntários da área de saúde do Brasil inteiro estão fazendo.



Contudo, a boa intenção de ajudar, de trazer consolo, quando distraída do amor fraterno e da devida sensibilidade pode ser uma forma de agredir, de machucar, ainda que sem essa intenção.



A Federação Espírita Brasileira (FEB), em seu sítio eletrônico, publicou a seguinte mensagem: “A Federação Espírita Brasileira manifesta solidariedade e vibrações fraternas às famílias envolvidas e a toda comunidade de Santa Maria (RS)”.



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Como entidade espírita brasileira, nenhuma outra casa tem a representatividade que a FEB possui. Muito acertado e desejável que em nome do Movimento Espírita nacional, a sua associação mais conhecida mostrasse a sua solidariedade com os envolvidos naquele sinistro. Ótimo se parasse aí.



A FEB, contudo, querendo esclarecer os possíveis motivos de tantas vidas ceifadas, provavelmente para mostrar que nada ocorre por acaso, que Deus é justo e misericordioso, teve a infelicidade de  publicar, em adendo, a seguinte mensagem psicografada do espírito Emmanuel por intermédio de seu médium, Chico Xavier:


Desencarnações Coletivas (Emmanuel)

Sendo Deus a Bondade Infinita, por que permite a morte aflitiva de tantas pessoas enclausuradas e indefesas, como nos casos dos grandes incêndios?
(Pergunta endereçada a Emmanuel por algumas dezenas de pessoas em reunião pública, na noite de 23-2-1972, em Uberaba, Minas).

RESPOSTA:

Realmente reconhecemos em Deus o Perfeito Amor aliado à Justiça Perfeita. E o Homem, filho de Deus, crescendo em amor, traz consigo a Justiça imanente, convertendo-se, em razão disso, em qualquer situação, no mais severo julgador de si próprio.

Quando retornamos da Terra para o Mundo Espiritual, conscientizados nas responsabilidades próprias, operamos o levantamento dos nossos débitos passados e rogamos os meios precisos a fim de resgatá-los devidamente.

É assim que, muitas vezes, renascemos no Planeta em grupos compromissados para a redenção múltipla.

***

Invasores ilaqueados pela própria ambição, que esmagávamos coletividades na volúpia do saque, tornamos à Terra com encargos diferentes, mas em regime de encontro marcado para a desencarnação conjunta em acidentes públicos.

Exploradores da comunidade, quando lhe exauríamos as forças em proveito pessoal, pedimos a volta ao corpo denso para facearmos unidos o ápice de epidemias arrasadoras.

Promotores de guerras manejadas para assalto e crueldade pela megalomania do ouro e do poder, em nos fortalecendo para a regeneração, pleiteamos o Plano Físico a fim de sofrermos a morte de partilha, aparentemente imerecida, em acontecimentos de  sangue e lágrimas.

Corsários que ateávamos fogo a embarcações e cidade na conquista de presas fáceis, em nos observando no Além com os problemas da culpa, solicitamos o retorno à Terra para a desencarnação coletiva em dolorosos incêndios, inexplicáveis sem a reencarnação.

***

Criamos a culpa e nós mesmos engenhamos os processos destinados a extinguir-lhe as conseqüências. E a Sabedoria Divina se vale dos nossos esforços e tarefas de resgate e reajuste a fim de induzir-nos a estudos e progressos sempre mais amplos no que diga respeito à nossa própria segurança.

É por este motivo que, de todas as calamidades terrestres, o Homem se retira com mais experiência e mais luz no cérebro e no coração, para defender-se e valorizar a vida.

***

Lamentemos sem desespero, quantos se fizerem vítimas de desastres que nos confrangem a alma. A dor de todos eles é a nossa dor. Os problemas com que se defrontaram são igualmente nossos.

Não nos esqueçamos, porém, de que nunca estamos sem a presença de Misericórdia Divina junto às ocorrências da Divina Justiça, que o sofrimento é invariavelmente reduzido ao mínimo para cada um de nós, que tudo se renova para o bem de todos e que Deus nos concede sempre o melhor.

(Transcrito do livro: XAVIER, Francisco C. Autores diversos. Chico Xavier pede licença. S. Bernardo do Campo: Ed. GEEM. Cap. 19).


Não precisa ser perspicaz para imaginar o soco no estômago que uma explicação dessa causa em pais e mães que acabaram de enterrar os seus filhos.



Como esperar que os pais, parentes e amigos se animem ao lerem que as jovens vítimas eram “Invasores ilaqueados pela própria ambição”, que esmagavam coletividades com “volúpia do saque”? Qual o consolo que nós espíritas oferecemos ao dizer as mães em luto que seus filhos provavelmente eram “promotores de guerras” com “megalomania do ouro e do poder”, e por isso morreram de forma tão desastrosa? Esse é o Consolador Prometido por Jesus?



Não temos dúvida: o familiar em dor, desespero, sem saber o porquê da perda, ao ler uma mensagem dessas, não ficará mais consolado; ao contrário, se sentirá indignado e ofendido.



Na Palestina do século I, uma pessoa cega, paralítica ou endemoninhada era vista como pecadora. Ninguém tinha pena. Era castigo de Deus e Deus sabe o que faz. Problema delas. Nem no templo de Jerusalém elas poderiam entrar. Estavam afastadas do mundo e de Deus.



Um rabi de Nazaré, tido por muitos como messias de Deus, nunca negou auxílio para nenhuma. Nunca soubemos que acusou qualquer um dos enjeitados da sorte como pecadores. Simplesmente amava e o seu amor puro curava esses sofredores. O nome dele era Jesus de Nazaré.



O Espiritismo só será o consolador prometido por Jesus se os espíritas souberem consolar quem chora, e não apontar o dedo discursando sobre supostas culpas.



No caso da mensagem de Emmanuel, ela integra um livro da série “Na Era do Espírito”[1], onde questões feitas por encarnados são respondidas pelo amigo espiritual do médium mineiro. É um tema de estudo, em um ambiente de estudo e feito para o estudo. Não é mensagem para ser distribuída e amplamente divulgada em um momento tão doloroso, o que quase equivale a entregá-la nos velórios e funerais.



Em tragédias como essa, os votos de fraternidade e solidariedade devem ser os primeiros. As famílias e os amigos desses jovens merecem todo o nosso respeito em seu luto. Não sejamos especuladores do sofrimento alheio. Ainda estamos longe de conhecer todas as causas espirituais de um desastre como esse. Publicar (ou postar nas redes sociais) “Desencarnações Coletivas”, nesta hora, pode causar mais dor do que consolo, além de generalizar a resposta que não temos, pois somos ignorantes das causas das aflições nossas e alheias. O silêncio é a melhor condolência.









[1] Os outros livros que compõem a série “Na Era do Espírito” são:  “Na Era do Espírito” (1973), “Astronautas do Além” (1974) e “Diálogo dos Vivos” (1974).

Imagem 1: fonte Fonte: http://www.google.com.br/imgres?start=109&hl=pt&sa=X&tbo=d&biw=1440&bih=776&tbm=isch&tbnid=n3m4rUBqm1j95M:&imgrefurl=http://www.valor.com.br/brasil/2987446/apos-incendio-em-boate-118-pacientes-seguem-internados-no-rs&docid=UgDrcqu33HbPsM&imgurl=http://www.valor.com.br/sites/default/files/imagecache/media_library_560_367/images/santa_maria_galeria_parte20_0_0_1920_1257.jpg&w=560&h=367&ei=2g8IUem8I4T89gTu7oBo&zoom=1&ved=1t:3588,r:17,s:100,i:73&iact=rc&dur=1508&sig=116726518455711075366&page=6&tbnh=178&tbnw=277&ndsp=21&tx=207&ty=99

Imagem 2: fonte: portal da FEB (http://www.febnet.org.br/blog/geral/movimento-espirita/desencarnacoes-coletivas-emmanuel/)